Três planos de cinco anos, ou um plano com três salários?
A planilha oficial do Odyssey Plan tem uma instrução que quase todo mundo ignora: cada um dos três planos precisa ser radicalmente diferente. A maioria dos devs escreve três faixas de preço da mesma vida. Aqui vai o teste de incompatibilidade e um prompt que ataca os seus planos.
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A planilha oficial do Odyssey Plan, feita por Bill Burnett e Dave Evans — os dois professores de Stanford que escreveram Designing Your Life — tem uma frase que decide se o exercício funciona ou não: o objetivo é fazer cada Odyssey ser radicalmente diferente dos outros ("wildly different", nas palavras deles). Quase ninguém obedece. Quando eu vejo dev brasileiro fazendo esse exercício, o que sai são três planos que são o mesmo plano com o botão do salário girado: sênior aqui, sênior numa empresa gringa, staff numa empresa gringa. Três faixas de preço, uma vida só. Não existe decisão nenhuma ali dentro — e por isso não tem nada pra aprender.
O que é o exercício de verdade
Burnett e Evans fundaram o Stanford Life Design Lab, que até hoje distribui o Odyssey Planning como uma série de vídeos e um módulo no edX. O exercício são três planos de cinco anos separados, um pra cada pergunta:
- Vida Um — a trajetória em que você já está, ou aquela ideia que você vem cozinhando há um tempo.
- Vida Dois — o que você faria se a Vida Um deixasse de existir amanhã.
- Vida Três — o coringa: o que você faria se dinheiro e imagem não fossem problema.
O que as versões de blog cortam é justamente o que faz o exercício funcionar. A planilha que o Career Management Center da Colorado State distribui, licenciada de Burnett, Evans e Stanford, lista os quatro elementos. Cada plano precisa de um título de seis palavras; de uma linha de tempo desenhada do ano 0 ao ano 5 que inclua eventos de vida fora da carreira, não só mudança de emprego; de duas ou três perguntas que aquele plano responde — e a planilha é explícita: são curiosidades que você poderia matar vivendo assim por cinco anos, não perguntas sobre se o plano é viável; e de um painel com quatro ponteiros: Resources (você tem tempo, dinheiro, habilidade e contatos pra isso?), I Like It (de frio a quente), Confidence (de vazio a cheio) e Coherence (isso combina com a sua visão de trabalho e de vida?).
Coherence é o ponteiro que todo mundo corta — e é exatamente ele que impede "radicalmente diferente" de virar "aleatório".
A versão brasileira, escrita pra dar conflito
Pra um dev ou EM que mora aqui, três planos que realmente não caibam juntos são mais ou menos assim.
Vida Um — você cresce onde está. Salário em real, uma carreira que você consegue ver o próximo degrau, rede construída olho no olho, português o dia inteiro. A curiosidade: até onde a senioridade local me leva de fato?
Vida Dois — o Brasil deixa de ser o seu mercado. Você é contratado por uma empresa de fora morando aqui: dólar ou euro, contrato via EOR, agenda torta pra pegar o fuso de outra gente. A curiosidade: eu aguento a régua de performance de fora, em inglês, todo dia, sem escritório pra me carregar?
Vida Três — você sai do trilho. Dinheiro não é a restrição: produto próprio, ensinar, uma consultoria de IA com o seu nome, ou mudar de país de mala e cuia. A curiosidade: o que eu amo é a engenharia mesmo, ou é construir?
Isso é exemplo, não é a sua resposta. Quais três você escolhe importa bem menos do que se eles poderiam ser verdade ao mesmo tempo.
O teste: mesmo primeiro passo, mesmo plano
Essa é a parte que eu acrescentaria à planilha. Pra cada plano, escreva a única coisa concreta que você começaria nos próximos seis meses. Depois coloque os três primeiros passos lado a lado.
Se dois deles são a mesma ação, você tem dois planos, não três.
"Melhorar o inglês, montar um portfólio, aplicar pra fora" serve pros três caminhos ao mesmo tempo — ou seja, não é plano, é o mínimo. Faça de qualquer jeito. Um primeiro passo real da Vida Dois gasta algo que a Vida Um precisa: empurrar o seu dia pra pegar o horário dos Estados Unidos custa exatamente a visibilidade presencial que rende promoção aqui. Um primeiro passo real da Vida Três queima o que está acumulando juro composto na Vida Um — a especialização que você para de aprofundar no mês que começa.
Use o modelo como adversário, não como autor
O movimento óbvio é pedir pro modelo escrever os seus três futuros. Não faça isso. Peça três planos de cinco anos pra um engenheiro brasileiro e o modelo vai puxar pra média de tudo que ele já leu sobre engenheiro brasileiro, e te devolver três sabores do mesmo caminho seguro — exatamente a falha que o exercício existe pra evitar. Os planos têm que sair de você; só você tem os dados de entrada.
Onde o modelo ganha de um amigo: ele continua batendo no plano muito depois do ponto em que um amigo começaria a pegar leve. Então entregue os três que você escreveu e peça pra ele tentar quebrar.
Você vai fazer um teste de estresse em três planos de cinco anos que eu já
escrevi. Você não vai escrever plano nenhum pra mim e não vai me incentivar.
Assuma que cada plano está errado até a evidência mostrar o contrário.
MEU CONTEXTO
- Cargo, nível, anos de experiência:
- Onde eu moro; minha moeda e meu salário atual:
- Reserva em meses; quem depende da minha renda:
- Inglês, sem enfeite: leitura / escrita / conversa:
- Horas por semana que eu consigo proteger de verdade pra isso:
MEUS TRÊS PLANOS (título de seis palavras + 3 a 4 frases cada)
- Plano 1, trajetória atual:
- Plano 2, se o plano 1 acabasse:
- Plano 3, sem restrição de dinheiro nem de imagem:
PASSO 1 - TESTE DE INCOMPATIBILIDADE. Antes de qualquer coisa: são três planos
ou um plano de três fantasias? Compare pelos recursos que cada um consome e
pelas habilidades que cada um acumula. Se dois deles pudessem ser perseguidos
com os mesmos seis meses de esforço, aponte quais dois e pare aí. Me diga o que
teria que mudar pra eles ficarem realmente incompatíveis, e espere eu reescrever.
PASSO 2 - Depois, pra cada plano, nesta ordem:
a) O que precisaria ser verdade pra isso funcionar? Liste as premissas e marque
cada uma como "eu controlo" ou "o mercado controla".
b) O que eu teria que aprender, e como um gestor de fora verificaria que eu
aprendi mesmo?
c) Quanto custa - dinheiro, tempo, relações e a opcionalidade que eu abro mão.
Diga o que esse plano torna mais difícil lá na frente.
d) O teste mais barato nos próximos 90 dias capaz de provar que esse plano está
errado. Não é um passo adiante: é uma tentativa de derrubar.
PASSO 3 - Preencha os quatro ponteiros de cada plano e justifique cada um em uma
linha: Resources (0-100), I Like It (frio-quente), Confidence (vazio-cheio),
Coherence (0-100, o quanto combina com como eu quero trabalhar e viver).
PASSO 4 - Me diga em qual ponteiro eu provavelmente estou mentindo pra mim
mesmo, e o que nas minhas próprias respostas te fez pensar isso.
REGRAS
- Nunca invente fato sobre a minha situação. Se faltar informação, me pergunte.
- Zero discurso motivacional. Seja específico ou não diga nada.
- Se um plano não pode ser derrubado em 90 dias, chame de desejo, não de plano.
- Feche com um parágrafo: o que você testaria primeiro se essa vida fosse a sua,
e o que você se recusaria a fazer.
Coloque número real — salário real, reserva real, nível de inglês real, o fuso que você aguentaria por dois anos. Entrada vaga compra ataque vago.
Hoje
Escreva três títulos de seis palavras. Só isso — sem linha de tempo, sem ponteiro, sem rodar o prompt ainda. Seis palavras cada, e eles precisam descrever três vidas que você não teria como viver ao mesmo tempo. Se você não conseguir três que se contradigam, esse já é o achado: você tem um plano só, e os próximos cinco anos já estão decididos.
Fontes
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